



A idéia de montar um núcleo do MOVA num centro de recuperação terapêutica causa estranhamento à primeira vista. Como alfabetizar pessoas que sofrem de doenças mentais? O pessoal de Ribeirão Pires aceitou o desafio.
A pedagogia utilizada deve contar com apoio e instrução de profissionais de saúde que possuem familiaridade e técnica na relação com essas pessoas.
A maior dificuldade enfrentada no projeto, que por enquanto só atende mulheres, é saber como as alunas irão reagir às atividades propostas em sala de aula.
Uma característica do doente mental é que ele vive de pequenos momentos. A oscilação de humor e bem-estar é constante. “A educadora, assim como os demais profissionais de saúde que atendem essas mulheres, devem estar atentos às mudanças de temperamento.
E, com certeza, existirão momentos em que as alunas deverão ser afastadas do núcleo nas crises da doença,” esclarece o Dr. José Carlos de Arruda, psiquiatra responsável pelas residências de recuperação de Ribeirão Pires.
Para avaliar a situação terapêutica das alunas durante o processo educacional, uma reunião é realizada toda sexta-feira com a participação dos profissionais de saúde responsáveis e a educadora do núcleo.
Outra providência é organizar uma série de palestras sobre doenças mentais, como os sintomas se apresentam e, principalmente, que medidas tomar em caso de surtos psiquiátricos.
“São informações importantes para quem quer trabalhar com doentes mentais e as educadoras devem estar cientes das características de suas alunas”, explica Davilson Roberto Beber, presidente do Centro de Recuperação Terapêutica Pérola da Serra e um dos idealizadores do projeto.
A característica do MOVA, de agrupar pessoas com conhecimentos diferentes para que haja troca e conhecimento ampliado de todos, é fundamental para a obtenção de resultados positivos. Mas no caso dos centros terapêuticos isso pode gerar dificuldades. Muitas vezes, em função da doença, algumas pessoas se isolam e não ocorre a interação necessária. O grande desafio da educadora é vencer esta realidade.
Por isso deve ter muito jogo de cintura na hora de preparar suas aulas, para que ninguém se sinta excluída no processo educacional.
Muito mais do que ler e escrever, o trabalho do MOVA dentro desses centros é fazer com que as pacientes consigam interagir com a sociedade de maneira sadia e cidadã.
Mariana Duarte Padovani, educadora do núcleo, acredita no potencial dessas mulheres e ministra as aulas com carinho e competência.
Primeiro foi conhecer suas futuras alunas, para que elas se familiarizassem com sua presença dentro das residências. Só depois de conquistar a confiança delas é que iniciou o trabalho educacional. As aulas começaram no início de outubro do ano passado e atende 15 pacientes de três centros terapêuticos no bairro Vila Suíça.
A sala de aula no Centro de Recuperação Terapêutica de Ribeirão Pires é espaçosa e colorida. As próprias alunas cuidam para que ela esteja sempre arrumada. Freqüentar as aulas já é a atividade preferida delas.
O fato de irem assistir as aulas por conta própria já é uma grande vitória na visão da educadora. “No começo, algumas diziam que não precisavam estudar e agora adoram fazer as atividades”, diz Mariana.
Para ela, os resultados desse trabalho superam as expectativas. “Elas se comunicam melhor, estão mais amáveis, mais sociáveis, estão se entrosando umas com as outras, aprendendo como é importante trabalhar em equipe, algo impensável quando cheguei aqui”, conta.
Além de educá-las nas letras, Mariana faz todo um trabalho de conscientização de hábitos a serem seguidos para uma melhor convivência em grupo. Ensina a importância dos centros terapêuticos estarem sempre arrumados, sem bitucas de cigarro espalhadas pelo chão, para que tratem seus pertences com carinho e ajudem nos afazeres diários para manter as residências em ordem.
Também trabalha a auto-estima dessas mulheres mostrando-lhes a importância de estarem sempre limpas, cuidarem dos dentes, das roupas. Esse trabalho é tão importante para a educadora que ainda no fim de abril elas passarão a ir, uma vez por mês ao cabeleireiro para fazer as unhas, cortar o cabelo, fazer escova. “Quero que elas tenham consciência de si”, diz Mariana.
Com resultados tão positivos, o próximo passo é começar a para começar a levar as educandas do Centro de Recu-perção para aulas fora de sala. A proposta é que elas conheçam a cidade em que vivem, as festas típicas do município, o meio ambiente que as cercam. “Isso é importante para que elas se sintam cidadãs, se sociabilizem novamente”, diz.
A principal preocupação da educadora nessas saídas em grupo é que as pessoas possam reagir de maneira preconceituosa em relação às alunas. “Quando fomos ao mini-zoológico da cidade, as pessoas apontavam para elas e faziam comentários de mau gosto. Elas ficam muito tristes porque sabem que estão falando delas”, conta.
Vencer as barreiras do preconceito e do isolamento em que vivem essas mulheres é a tarefa desse núcleo do MOVA. Todos os profissionais que participam desse projeto sabem disso e pretendem não só conseguir fazê-las ter uma melhor qualidade de vida, mas também estender esse projeto a outros pacientes e mostrar que um trabalho interdisciplinar feito com seriedade e dedicação é capaz de mudar a realidade de muitas pessoas.
Para participar dos núcleos de MOVA espalhados pelas seis cidades da região entre em contato com as coordenadoras de cada município que elas lhe indicarão a sala de aula mais próxima de sua residência.
Para colaborar com o MOVA, empresas, igrejas, sindicatos, movimentos populares, associações de bairro e entidades não-governamentais podem adotar salas (contribuindo para sua implantação ou manutenção); assumir a ajuda de custo de um ou mais educadores; ceder espaços para as salas de aula; divulgar o movimento; doar material escolar ou estabelecer uma parceria.
Entre em contato com a coordenadoria do MOVA ABC e solicite apresentação do Projeto de Alfabetização.